quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Baby Huey, o Tim Maia norte-americano

A pequena Richmond, no interior do Alabama, é uma daquelas típicas cidadezinhas norte-americanas onde o calor bate no asfalto e distorce a paisagem enquanto poucos habitantes assistem o passar dos dias sem maiores preocupações. Este aspecto bucólico está conservado até hoje, e faz parte do cotidiano dos cerca de 40 mil habitantes do município.

Imaginem então como era a vida por aquelas bandas na década de 1940. Foi ali, no primeiro dia de 1944, que o pequeno James Ramey veio ao mundo. O garoto passou toda a infância e parte da adolescência em Richmond, mas sabia que o lugar era pequeno demais para os seus sonhos. Aos 19, mudou-se de mala e cuia para Chicago, onde virou um frequentador assíduo dos botecos e clubes da cidade.

James sofria de um distúrbio glandular que causou um problema crônico de saúde, além de elevar o seu peso para aproximadamente 160 kg - a semelhança física, e também comportamental, com um certo Sebastião Rodrigues Maia é de assustar qualquer um. Este físico avantajado fez surgir o apelido de Baby Huey, o mesmo de um popular personagem de histórias em quadrinhos da época.

Em 1963 Huey montou, ao lado dos amigos Melvin Jones (órgão e trompete) e Johnny Ross (guitarra), a banda Baby Huey & The Babysitters. O conjunto rapidamente chamou a atenção, tanto pela presença de palco de Huey quanto pela boa repercussão dos singles “Messin' with the Kid / Just Being Carefull” (1964) e “Monkey Man / Beg Me” (1965), que rolaram direto nas rádios e clubes blacks, fazendo a cabeça da moçada.

Na segunda metade da década de 1960, influenciados por todo o clima hippie que tomava conta da América, a banda passou a incorporar influências psicodélicas na cola de Sly & The Family Stone, que ditavam os caminhos que a música negra tomaria nos ricos anos seguintes. Baby Huey passou a ostentar uma enorme cabeleira black power e a vestir robes com motivos africanos, aparência que lhe atribuiu um ar de guru da cena local.

Simultaneamente, os Babysitters tocavam sem parar, atraindo um público cada vez maior para o seu contagiante show, centrado, como não poderia deixar de ser, na figura hipnótica e carismática de seu vocalista. Apesar do sucesso ao vivo, a banda não registrou nenhuma gravação no período.

Percebendo o potencial do grupo, o manager Marv Heiman agendou uma audição com Danny Hathaway, arranjador e produtor da Curtom Records. Hathaway ficou impressionado com a musicalidade e performance de Huey e companhia e recomendou o combo para Curtis Mayfield, diretor artístico do selo, que imediatamente demonstrou fascinação pela figura de Baby. A dupla, percebendo que a força da banda estava no vocalista, ofereceu um contrato para Huey gravar um álbum solo, colocando os Babysitters em segundo plano.

O trio formado por Baby, Melvin e Johnny, acompanhados por músicos residentes da Curtom, entraram em estúdio e registraram as composições que Huey tinha na manga. Mas, amargurados pelo fato de terem sido relegados a um papel secundário, Jones e Ross saltaram fora, deixando todo o direcionamento musical com Huey e Mayfield.

No mesmo ritmo em que a carreira musical entrava nos trilhos, Baby afundava em heroína, e o vício fez o seu peso beirar os 200 kg, além de causar atrasos e faltas em alguns shows. Percebendo a dependência do cantor, Curtis e os músicos que o acompanhavam conseguiram convencer Huey a se internar em uma clínica de reabilitação no outono de 1970.

O vício em heroína havia complicando o estado de saúde de Baby, que, após um breve período limpo, acabou falecendo precocemente em 28 de outubro de 1970, com apenas 26 anos. Seu corpo foi encontrado por volta do meio-dia por seu manager no hotel onde o cantor estava hospedado. No dia 1 de novembro de 1970, James Ramey foi sepultado em sua terra natal, e lá descansa até hoje.

O disco em que estava trabalhando com Curtis Mayfield foi lançado apenas em 1971. Com a produção assinada por Curtis, The Baby Huey Story: The Living Legend é uma pedrada sônica sacolejante e o testamento singular e definitivo do enorme talento de seu criador. Misturando funk com psicodelia e rock, o álbum é uma das jóias perdidas (e infelizmente pouco conhecidas) dos anos 1970.

A arrasa-quarteirão “Listen to Me” abre os trabalhos com quase sete minutos de embalo contagiante, com um esperto naipe de metais fazendo o contraponto para as criativas linhas vocais. Na sequência, a instrumental “Mama Get Yourself Together”, um funk de rachar o assoalho. 

As coisas ficam mais calmas com “A Change is Going to Come”, cover da canção de Sam Cooke, baladaça soul com ótima interpretação de Huey, dono de um timbre vocal personalíssimo. As coisas voltam a ficar agitadas com “Mighty Mighty” e pegam fogo de vez com a sensacional “Hard Times”, um proto rap com andamento copiado e sampleado por praticamente todo o universo hip-hop. Essa faixa é a prova irrefutável de quão à frente de seu tempo estava a cabeça de Baby Huey, pois ela continua soando pra lá de atual. Impossível ficar parado!

A clássica “California Dreamin’" vem a seguir em uma inusitada releitura instrumental, com direito até à flauta doce. De cair o queixo! O nível segue lá em cima com a psicodélica “Running”, com andamento marcial fundido a um funk repleto de energia. O LP fecha com “One Dragon Two Dragon”, instrumental repleta de percussão e melodias arrepiantes.

Produtores e artistas de rap redescobriram o disco na década de 1980, fazendo com que “Hard Times”, “Listen to Me” e “Mighty Mighty” fossem popularizadas em infinitos samples. Trechos de “Hard Times”, por exemplo, podem ser ouvidos em “Can I Kick It?” (A Tribe Called Quest) e “Buck 50” (Gosthface Killah). 

The Baby Huey Story: The Living Legend é um dos melhores, mais importantes e influentes álbuns de black music já gravados. Afirmo sem medo de errar.

Ouça abaixo e veja se você não concorda:

 

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